eolus
Tuesday, November 01, 2011
 

Para lá da boca do inferno

Pela altura em que cheguei à idade média, comecei a dar mais atenção ao rio que por mim corria. O caudal turbulento já se transformava no calmo e suave cantar da água e os sons que antes pareciam só de trovoada começaram a tomar forma. Primeiro foram os passos da onça que se aproximava e me olhou intensamente, depois o rugir do leão a dizer que não era por ali o caminho e por fim a loba magra e esfomeada que me seguia cada vez mais perto.  Agora já ouvia o barulho de vários cães que se aproximavam.

Ao ver a gruta entrei logo, sem pensar, corri até ao fundo e encostei-me a uma rocha plana. Ouvi um click e a rocha abriu-se atrás de mim. Caí para trás e quando me levantei já a porta se tinha fechado de novo, deixando-me protegido dos perseguidores. Foi por pouco!

Recuperei o fôlego, descansei um pouco e finalmente senti-me seguro, não suspeitando da sorte que me estava reservada. Na completa escuridão apenas escutava o ladrar dos cães atrás da porta e a chuva que caía à minha frente. ‘Deve haver uma saída por este lado’, pensei.

Á frente tinha uma varanda e de cada lado um corredor. Nunca mais esqueci o que a Bea me ensinou quando nos encontramos no labirinto em Hampton Court: ‘Em todas as encruzilhadas, vira sempre à direita e vais sair num instante’. Não só era verdade como de uma vez por todas matou o meu fascínio por labirintos. Virei à direita, subi uns degraus e esbarrei com uma parede um pouco à frente. Só tinha duas alternativas, saltar para o vazio à esquerda ou voltar para trás. Sem saber a altura, dei a volta e comecei a descer, Ah, ‘é bom que contes os degraus para saber onde estás’. Um, dois... desaseis, parece que voltei aonde tinha começado.

‘Tentar sair ao encontro da loba e dos cães não parece boa ideia. Vou pelo caminho da esquerda’. Os cães estavam calados, talvez se tivessem afastado, e a chuva estava mais calma. Então comecei a ouvir uns sons estranhos vindos lá de baixo, que mais pareciam gritos e lamentações. Nesse instante um relâmpago iluminou o espaço e pude ver que estava num poço circular e com uma profundidade que não podia calcular.

Quando o clarão se extinguiu, apercebi-me de olhos que me observavam, de todas as direcções. Gelei de medo e ali fiquei sem saber se voltar para cima ou continuar a descida. Talvez porque o som das vozes, era mais desesperado que agressivo, encontrei força para continuar, com o coração a saltar do peito e encostado o mais possível à varanda e ao abismo para não me aproximar da parte exterior do poço, Aí, em pequenos nichos estavam seres (não sabia como os descrever) que me observavam e que queriam comunicar comigo, em grunhidos que eu não entendia.

Terminei mais um lance de degraus, o terceiro, tentei controlar o medo para observar objectivamente o que passava à minha volta. Entre os grunhidos, gritos e suspiros dos meus companheiros deduzi, aterrorizado que tinha descido ao inferno, embora não me lembrasse de ter morrido ou do que me pudesse ter lá levado. 

Um novo relâmpago permitiu-me ver a parede interior do túnel e as colunas que sustentavam a escadaria. O cheiro húmido lembrava a casa das magnólias onde o nevoeiro vivia connosco e ficava do lado de dentro quando se fechavam as janelas; um clima para alimentar um cogumelo com 3 metros de comprimento que nos expulsou de uma parte da casa durante todo o inverno.




Cento e cinco, cento e seis, os lances de escadas repetem-se com 15 degraus cada um para cada volta completa á torre invertida. Já desci seis andares para baixo da terra e sinto-me mais frio. As vozes começam a fazer sentido à medida que a minha respiração acalma. Uma mulher, mesmo ao meu lado fala-me quase em segredo de um plano fantastico de sair dalí e quer que a ajude. Desço mais um pouco e está um homem com mãos metálicas, como tesouras, que me fala da sua dor de não poder tocar a mulher que ama.

Não fico muito tempo e desço para o patamar seguinte onde outro homem me fala suavemente do seu plano de tranformar em água doce a água do mar, para acabar com o problema das secas e um arquitecto mostra-me os seus planos detalhados de construir uma escada que ligue a terra ao céu. Outros mais querem prender a minha atenção para que fique ali com eles, mas agora que o medo passou e posso pensar claramente, entendi que aquele lugar é para os prisioneiros dos desejos e das ideias e não para mim.

Estou a chegar ao nono nível. Cento e quarenta e nove, cento e cinquenta, cento e cinquenta e um, Os meus olhos já habituados à escuridão percebem que cheguei ao fundo, à direita há uma entrada para um círculo com uma rosa dos ventos e uma cruz dos templários marcada no chão. Entro e olho para cima. Vejo um pouco de céu entre as nuvens escuras que passam rápidas. Parece que a chuva está a passar.

No lado oposto à entrada há uma saida do círculo com uma passagem para um corredor que se bifurca em dois. Desta vez espero que Bea tenha razão, sigo pela direita por um túnel estreito. Os morcegos voam por ali à vontade e só me tocam levemente na cabeça. Viro outra vez à direita e outra e começo a mergulhar num silêncio e escuridão profundos onde não há nada de nada. Mesmo a noção de cima e baixo ou de peso deixam de funcionar como é normal e tenho sensação de andar em espiral por corredores sem fim.



É raro ver o tempo a passar, mas nessa vez os nossos olhos cruzaram-se, ele abrandou e caminhou um pouco connosco. Os olhos de Leda riam sem parar enquanto seguíamos esse caminho sinuoso na direcção da casa.

Como sempre, o sol era um anel de fogo fixo no céu sobre as nossas cabeças. Na hora certa um bando de pombas trazia uma capa negra para cobri-lo. Pelos rasgos na capa saíam luzes cintilantes. Leda disse: ‘mira, la cruz del sur’, apontando para o alto.
Quando chegamos, fomos saudados pelo perfume intenso de ‘palo de ambar y jasmin del cabo’ mas não havia ninguém para nos atender. Seguindo o perfume encontramos o jardineiro que parecia esperar-nos. ‘Ficam no número 6, mas primerio tenho de prepará-lo’. Foi buscar lençóis e toalhas e com as suas mãos grandes e rugosas fez delicadamente a cama. No fim chamou-nos e disse, ‘o quarto está pronto’.

Lembro a luz da lua grande que entrava pelo quarto e de dormirmos abraçados nessa noite quente de verão. Quando a mordi gritou levemente de dor e surpresa. No azul dos seus olhos vi reflectidas as minhas penas de cisne que ela acariciava com ternura.

No quinto dia da oitava lua descemos à praia para celebrar o festival do meio do outono. Lemos segredos nos moon cakes sob a luz de milhares de sóis em Causeway Bay e no nono dia da nona lua subimos a montanha para levar crisântemos aos habitantes do pico, que têm a vista mais linda da ilha.

O taxi chegou e entramos a correr. A chuva começou a caír ainda mais forte. A meio da subida, ao passar pelas gárgulas, o taxi já se tinha transformado num barco que subia o rio contra uma corrente fortíssima de lama e água barrenta.

Layla chegou pouco depois da meia-noite, tossiu levemente e recebi-a nas mãos trémulas. Toda a noite em vigilia contei cada alento que chegava para a saudar. Desta vez foram as cegonhas que levaram o manto e descobriram o dia de Aberdeen. Os juncos bailavam no porto, lá em baixo.

No passeio de Tai Tam, uma pequena tartaruga estava na borda de um tanque que transbordava numa cascata gigante. A corrente tentava levá-la para o abismo. Leda, sem hesitar, saiu do caminho de um salto para salvá-la de uma queda enorme.

O ruído da água a cair estava mais forte. Continuei a andar, passei por baixo da cascata e cheguei à borda do lago que estava coberto por um manto de líquenes e algumas camélias rosadas.

Atravessei o lago, começando com o pé direito, pousando com cuidado cada pé na água até chegar à outra margem e finalmente ver a luz do sol. Não olhei para trás para saber se as pegadas tinham ficado marcadas na água. Já havia estátuas suficientes no jardim.



14 .Fevereiro. Seis




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